Se você acompanha o mercado de imóveis populares, já sentiu o efeito: a greve da Caixa mexeu com o caixa das maiores incorporadoras do país. A paralisação, que durou de 10 a 29 de setembro, reduziu os repasses de financiamentos da Tenda e da Cury e fez a MRV deixar de receber cerca de R$ 80 milhões no terceiro trimestre de 2026.
As informações vêm de relatórios do Itaú BBA e do BTG Pactual divulgados em 9 de outubro. Eles analisam as prévias operacionais que as empresas publicaram um dia antes, e incluem também a Moura Dubeux.
Os números das quatro incorporadoras
| Empresa | Repasses no trimestre | Cancelamentos | Destaque |
|---|---|---|---|
| Tenda | R$ 765 milhões (queda de 32% em um ano) | R$ 293 milhões na marca Tenda, alta de 115% | Vendas líquidas de R$ 1,21 bilhão |
| Cury | R$ 1,3 bilhão (queda de 13% em um ano) | R$ 358 milhões, alta de 60% | Fluxo de caixa livre de R$ 254 milhões |
| MRV | R$ 80 milhões retidos na Caixa | Sem dado na análise | Nova regra contábil para vendas |
| Moura Dubeux | Sem dado na análise | Sem dado na análise | Vendas líquidas de R$ 841 milhões, queda de 22% |
Como a greve chegou ao caixa das empresas
O repasse é a etapa em que o financiamento do comprador passa para o banco, que então paga a incorporadora. Com agências e centrais de crédito da Caixa fechadas na maior parte de setembro, essa transferência travou. As incorporadoras mantiveram o ritmo de vendas, mas o dinheiro dos novos contratos não entrou nos balanços do trimestre.
A Caixa informou, em nota do dia 2, que as agências voltaram ao atendimento presencial em 30 de setembro. O banco afirmou que as contratações de crédito imobiliário seguiram disponíveis por canais remotos e pela rede de correspondentes. Ele não divulgou quantas operações ficaram pendentes ou atrasadas.
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Tenda: repasses em queda e cancelamentos em alta
A Tenda concluiu o repasse de 4.000 imóveis aos bancos. Do total de R$ 765 milhões, R$ 729 milhões vieram da marca Tenda (queda de 25% em um ano) e R$ 36 milhões da fábrica de casas Alea (queda de 75%). Em setembro, os repasses caíram 51% em relação a agosto.
Os cancelamentos também subiram. Pela conta do Itaú BBA, os distratos na marca Tenda somaram R$ 293 milhões, o equivalente a 19,4% das vendas brutas, contra 12,5% no trimestre anterior. Em termos práticos, a cada R$ 100 vendidos, cerca de R$ 19 voltaram. O BTG Pactual calculou R$ 312 milhões em cancelamentos totais, alta de 78% no ano. Os analistas ligam o salto aos atrasos da greve e ao aperto nas regras de crédito da Caixa.
Para se adaptar a essas regras, a Tenda reduziu o pró-soluto de 10% para 7%. Pró-soluto é a parte do imóvel financiada pela própria incorporadora, sem garantia bancária. Segundo o Itaú BBA, a mudança reduz o preço médio de venda e encolhe o lucro dos novos lançamentos.
Cury: vendas firmes e caixa positivo mesmo com mais cancelamentos
A Cury repassou R$ 1,3 bilhão à Caixa, 36% abaixo do trimestre anterior. Os cancelamentos chegaram a R$ 358 milhões, alta de 60% sobre o mesmo período de 2025 pelo Itaú BBA e de 59% pelo BTG Pactual. Eles consumiram 15% das vendas brutas, contra 8% no segundo trimestre de 2026 e 11% um ano antes.
Segundo os analistas, parte dos compradores ficou inelegível ou desistiu por causa dos atrasos. O processo de aprovação mais rígido da Caixa também pesou, com entrevistas e taxas menores de aprovação para trabalhadores informais.
Mesmo assim, a empresa entregou números fortes:
- Vendas brutas: R$ 2,39 bilhões, alta de 17%.
- Vendas líquidas: R$ 2,03 bilhões, alta de 11,4%.
- Velocidade de vendas: 39,7%, contra 40,4% no trimestre anterior.
- Produção: 6,3 mil unidades, alta de 28%.
- Fluxo de caixa livre: R$ 254 milhões, acima dos R$ 200 milhões estimados pelo BTG Pactual.
O BTG Pactual avalia que o resultado mostra controle rigoroso das operações e um modelo de negócio enxuto.
MRV: R$ 80 milhões retidos e mudança na contabilidade
Na MRV, o efeito da greve da Caixa aparece em reais. O Itaú BBA informa que a divisão do Minha Casa, Minha Vida consumiu R$ 2 milhões de caixa, impactada pelos R$ 80 milhões que a empresa deixou de receber. O BTG Pactual chegou ao mesmo valor, mas lembra que o resultado já viria abaixo do esperado, pois a projeção era de cerca de R$ 150 milhões de geração nas operações de baixa renda.
O caixa fechou o trimestre positivo em R$ 435 milhões. O Itaú BBA alerta que isso aconteceu por causa da venda de projetos de duas subsidiárias, a Luggo (R$ 146 milhões) e a Resia (R$ 273 milhões), e não pelo dinheiro das casas populares.
A MRV também mudou a contabilização das vendas do programa. Antes, registrava a venda só depois que o financiamento passava definitivamente ao banco. Agora, registra na assinatura do contrato, como as concorrentes. Com a regra nova, as vendas líquidas no Brasil somaram R$ 3,2 bilhões, alta de 33% no ano. A mudança impede a comparação direta com trimestres anteriores.
Moura Dubeux: queda ligada ao calendário de lançamentos
Os bancos não atribuem o resultado da Moura Dubeux à greve. As vendas líquidas somaram R$ 841 milhões, queda de 22% em um ano. A velocidade de vendas foi estimada em 16,6% pelo Itaú BBA e em 15% pelo BTG Pactual. A explicação está no calendário, já que 40% dos projetos foram lançados na última semana de setembro, com pouco tempo para vender antes do fechamento do mês.
O consumo de caixa foi de R$ 170 milhões, por causa do andamento das obras e da compra à vista de um terreno em Salvador por R$ 97 milhões.
O que o mercado projeta e o que muda para você
Com o fim da greve, as instituições esperam a volta gradual das liberações de crédito e a queda nos cancelamentos. A Tenda informou que as vendas brutas cresceram mês a mês: 1,95 mil unidades em julho, 2,07 mil em agosto e 2,44 mil em setembro. Os analistas ressaltam que o futuro das empresas de baixa renda depende das regras de crédito da Caixa e da capacidade de manter margens com financiamento mais rígido.
Se você está comprando imóvel financiado ou acompanha empresas do setor, três cuidados ajudam:
- Comprador: reúna cedo a documentação de renda e pergunte à incorporadora em que etapa está o repasse do seu contrato. Atrasos podem fazer a compra ficar inelegível.
- Trabalhador informal: prepare comprovantes de renda, porque a aprovação está mais exigente.
- Investidor: olhe cancelamentos como percentual das vendas brutas, geração de caixa e velocidade de vendas, e não apenas o total vendido.
Uma dica de leitura: a prévia operacional é um balanço antecipado com lançamentos, vendas, repasses e entregas. Ela não traz receita, margem nem lucro, que só saem nas demonstrações financeiras completas.
Quer acompanhar os próximos balanços das incorporadoras e as regras de financiamento imobiliário? Continue lendo o Portal de Notícias Web Imóveis e confira os próximos conteúdos do blog.
FAQ – Perguntas Frequentes
P: Quando foi a greve da Caixa e quanto tempo durou?
R: A greve dos funcionários da Caixa Econômica Federal aconteceu de 10 a 29 de setembro de 2026. As agências retomaram o atendimento presencial em 30 de setembro, segundo o banco.
P: Qual foi o impacto da greve da Caixa na MRV?
R: A MRV deixou de receber cerca de R$ 80 milhões da Caixa no terceiro trimestre, conforme relatórios do Itaú BBA e do BTG Pactual.
P: O que é repasse de financiamento imobiliário?
R: É a etapa em que o financiamento do comprador é transferido ao banco, que paga a incorporadora. Quando o repasse trava, o dinheiro das vendas já feitas demora a entrar no caixa da empresa.
P: Por que os cancelamentos de contratos subiram?
R: Segundo os analistas, houve atrasos por causa da greve e aprovações de crédito mais rígidas na Caixa. Alguns compradores ficaram inelegíveis ou desistiram.
P: As incorporadoras devem se recuperar?
R: O mercado projeta volta gradual das liberações de crédito e queda nos cancelamentos após o fim da greve. A Tenda informou que as vendas brutas subiram mês a mês no trimestre.
Fonte de Referência:
Portas (relatórios do Itaú BBA e do BTG Pactual)




